Ben Jor dribla escalação de Céu e faz gol com Skank em ode ao compositor

Poderia ter sido um show antológico, apoteótico, como costumam ser as apresentações do craque Jorge Ben Jor. Mas que nada! Idealizado para saudar o artista carioca, o espetáculo Nivea Viva Jorge Ben Jor teve bons lances ao longo de cerca de duas horas e meia, mas bateu na trave em muitos momentos. O gol da vitória aconteceu somente no fim, sobretudo quando o cantor, compositor e músico pôs em campo as infalíveis Taj Mahal (1972) e País tropical (1969), já reunido novamente com o grupo mineiro Skank e com a cantora paulistana Céu no palco da casa Vivo Rio na noite de ontem, 14 de março, na pré-estreia do show que será feito ao ar livre em seis capitais do Brasil, de abril a junho, em apresentações gratuitas.


big-band era azeitada e garantiu a pegada do show orquestrado pelo produtor musical Dadi Carvalho. As imagens projetadas pela diretora Monique Gardenberg criaram belíssimos efeitos visuais no palco. Mas nem sempre a reunião deu liga em noite de louvações a Ben Jor, artista referencial da música brasileira, por conta da obra autoral gravada nas décadas de 1960 e 1970. Fora do habitual contexto musical, Céu jamais brilhou como o figurino inspirado no visual neon do último já clássico álbum da cantora, Tropix (2016). Quando Céu cantou Cabelo (Jorge Ben Jor e Arnaldo Antunes, 1991), com o toque do Skank, chegou a constranger quem conhece a descabelada gravação original de Gal Costa, de cujo repertório Céu também reviveu Que pena (Ela já não gosta de mim) (1969) sem o menor poder de sedução.



 

Felizmente, o Skank honrou o convite para reverenciar Ben Jor. Sem cair na tentação vã de reproduzir o irreproduzível suingue de Ben Jor, o quarteto mineiro mostrou intimidade com o cancioneiro do compositor que tocou logo no primeiro álbum, Skank (1992), cujo repertório incluiu Cadê o penalty? (1978), tema que rendeu boa batida de bola entre o grupo e Ben Jor no roteiro aberto pelo próprio Skank com o iluminado samba-enredo O dia que o sol declarou seu amor pela terra (1981). Com a costumeira competência, Samuel Rosa (voz e guitarra), Henrique Portugal (teclados), Lelo Zaneti (baixo e vocais) – bem à frente do palco e com vocais destacados em músicas como O telefone tocou novamente (1970), puxada por Céu – e Haroldo Ferretti (bateria) lembraram que Ben Jor também já transitou pelo trilho mineiro com Oé oé (Faz o carro de boi na estrada) (1981), reviveram com intensidade lado B do compositor (Oba lá vem ela, do álbum Força bruta, de 1970), realçaram toda a cor da Menina mulher da pele preta (1974) e mostraram porque formam uma das melhores bandas do Brasil quando seduziram a dispersa plateia de convidados da casa Vivo Rio com Minha teimosia, uma arma para te conquistar (1974), um dos picos de sedução da parte do Skank.


Mas – que pena! – nem tudo foi feito pelo Skank. Com Céu, Chove chuva (1963) caiu rala e Xica da Silva (1976) se arrastou em interpretação pálida até que, no meio do número, entraram em cena A Banda do Zé Pretinho e ele, Ben Jor, o rei da noite. Ben sacou logo as armas em Jorge de Capadócia (1975) antes de improvisar, a capellaCarolina Carol bela (1969), parceria com Toquinho cuja musa inspiradora foi ninguém menos do que a mãe de Céu, como o cantor e a cantora ressaltaram em cena. Mesmo com a voz já sem viço, efeito provável dos 72 anos que o artista festejará em 25 de março, Ben Jor animou a festa quando enfileirou sucessos como A banda do Zé Pretinho (1978), número valorizado por imagens que evocaram a era da black disco music, e Que maravilha (Jorge Ben Jor e Toquinho, 1969).

en Jor somente desanimou a festa quando cantou esquecível parceria com Umberto Tavares, Wagner Vianna e Jefferson Junior, Quero toda noite (2011), gravada pelo cantor Fiuk há sete anos. Mas logo recobrou o tom ao recair no suingue de Santa Clara clareou (1981) e Zazueira (1967). Na sequência, o anfitrião chamou Céu ao palco e, com a cantora, dividiu set que incluiu Por causa de você, menina (1963), Mas que nada (1963), Zumbi (1974, sem a força habitual), Bebete vãobora (1969) e Take it easy, my brother Charles (1969), culminando com outro hit infalível do anfitrião, W Brasil (Chama o Síndico). "Tim Maia!", bradava Céu no refrão. "Tá no céu", respondia Ben Jor, em verso improvisado em alusão ao fato de o cantor e compositor carioca Tim Maia (1942 – 1998), o Síndico, já ter saído de cena. Até que o Skank voltou ao palco do vivo e marcou golaço quando arremessou Ponta de lança africano (Umbabarauma) (1976) em lance bem marcado com Ben Jor. Outro ponto alto de show cheio de bolas que bateram na trave. O Skank brilhou ao cantar e tocar o cancioneiro de Ben Jor como Skank. Céu não disse a que veio em nenhuma intervenção. Mas a obra de Ben Jor – alquimista que misturou samba, soul, rock, funk e bossa em doses bem calculadas que gerou suingue inigualável – pairou soberana no show. Viva Jorge Ben Jor! Artista capaz de driblar escalação equivocada e, em tabelinha com o Skank, fazer o gol da vitória. (Cotação: * * * 1/2)

 

(Crédito das imagens: Samuel Rosa, Jorge Ben Jor e Céu em fotos de Leo Aversa)

http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/ben-jor-dribla-escalacao-de-ceu-e-faz-gol-com-skank-em-ode-ao-compositor.html

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